Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
Má experiência com final feliz

Já escrevi sobre o meu regresso ao trabalho, pós licença de maternidade. Foi em Junho. De Junho a Setembro os pagamentos de ordenados começaram a falhar e eu achei por bem arranjar um plano B. Fiz o meu CV, coisa que não fazia há seis anos, enviei-o para quatro sítios. Três desses sítios, que me tinham sido indicados como estando com processos de recrutamento abertos, responderam no próprio dia a dizer que os processos já estavam concluídos. O quarto CV foi enviado em resposta a um anúncio. Ligaram-me no próprio dia a marcar entrevista para dali a dois dias. Fui. A entrevista correu bem. Dois dias depois ligaram-me a fazer proposta, que aceitei. Na semana seguinte fui lá a uma segunda entrevista e oficializaram a proposta. Foi numa terça-feira. Comecei a trabalhar lá na sexta-feira dessa mesma semana.

No meu emprego anterior foram super-compreensivos, ficaram com muita pena de me ir embora... E com a minha saída, e visto que já só lá estávamos três pessoas a tempo inteiro, resolveram fechar o escritório físico e trabalhar a partir de casa. Ou seja, deram um enorme passo em direcção à conciliação entre trabalho e família.

 

No meu emprego novo, as coisas não poderiam ter corrido pior. Não houve acolhimento nenhum: cheguei lá, mostraram-me uma folha com os procedimentos básicos e duas horas depois queriam que eu estivesse a fazer propostas para clientes como se sempre ali tivesse estado. Claro que não correu bem, claro que fiquei insegura. A própria interacção entre as pessoas era uma coisa estranhíssima: não se podia falar com toda a gente, eu não devia falar quando me apetecesse. E, cereja no topo do bolo, como o meu nome não é simples, resolveram que a melhor maneira de contornar a dificuldade em memorizá-lo era passarem a tratar-me pelo meu segundo nome, que não reconheço como meu, que não espelha a minha identidade. Senti-me violada quando fizeram isto comigo... mas encarei aquilo como uma coisa que acontece por alguma razão. Assim, naquele sítio onde eu me sentia mal era X e, na minha vida fora dali, onde eu era feliz, usava o meu nome e continuava a sentir-me bem!

O horário oficial era das 9h30 às 13h e das 14h30 às 19h. Logo no primeiro dia saí às 20h. Saí tarde porque continuavam a dar-me coisas para fazer "agora". Expliquei que não podia sair depois das 19h porque a escola da minha filha fecha às 19h30 e eu tinha que a ir buscar. Ouvi um "sim, sim, mas tens isto para fazer". Não houve um dia que eu saísse a horas. Não houve um dia que a minha vida para além do trabalho fosse respeitada. E eu só aguentei 17 dias disto. Exactamente duas semanas depois de ter começado lá, e depois de ter passado duas semanas a estar meia hora por dia com os meus filhos, depois de ter passado duas semanas a chorar, resolvi que chegava e que não era aquilo que queria para a minha vida. Na segunda-feira seguinte anunciei que me ia embora (também já tinha percebido que não estavam nada satisfeitos com o facto de eu ter disponibilidade "limitada" ao horário de trabalho e que se preparavam para me substituir). No dia seguinte já não fui. Senti um alívio tremendo!

 

Falei com o meu (ex) patrão, perguntei se ainda precisava de mim. Disse-me que sim. Acordámos que eu ficaria a trabalhar em casa, em part-time, mas com total gestão do meu tempo, com total controlo sobre mim. Ouro sobre azul: trabalho para a empresa, trabalho para mim (tenho um negócio de costura, faço malas, carteiras, agendas, etc.), escrevo, faço mil coisas. E não gasto tempo em deslocações, nem tenho stresses desnecessários. Perdi dinheiro com o negócio, porque o que tenho garantido agora é muito menos do que tinha, mas estou muito, muito mais feliz. Estou muito mais tempo com os meus filhos, organizo-me muito melhor, sinto-me mais realizada. E sei que, quanto mais trabalhar, mais dinheiro vou receber, e isso é motivador.

 

Saldo? Claramente muito, muito positivo. E só lamento que ainda haja empresas que não têm respeito nenhum pelas pessoas, que fazem gala em exercer pressão sobre os funcionários e que ainda não perceberam que estão muito, muito longe de ter o sucesso que poderiam ter, se tratassem as pessoas como pessoas e não como peões num tabuleiro de xadrez!


Marianne



publicado por flexbilizar ~ conciliar às 12:55
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011
Compreender, focalizar, pressionar, mudar

Ana Teresa Mota | Consultora de Recursos Humanos

 

Nos tempos que correm a flexibilidade parece um mito e é cada vez mais complicado  conseguir mudanças que não estejam diretamente associadas com custos, junto dos patrões, ou com benefícios, junto dos colegas.

 

É preciso mudar as mentalidades, disso ninguém tem dúvidas. O problema é por onde começar e o que fazer. Vamos começar por nós? Começar por mudar a forma como vemos as coisas? Ou como as dizemos? É que se não tenho dúvidas de que a nossa família precisa de tempo (se não também não estaria aqui), tenho muitas dúvidas quanto à forma como por vezes dizemos o que queremos, ou defendemos as nossas posições.

 

Quando falamos de mudar mentalidades, falamos usualmente “para fora”. Os outros precisam de mudar de mentalidade. Os patrões têm que perceber que o trabalho não é tudo. Os colegas têm que perceber que cada um tem direito às suas próprias necessidades, prioridades e objetivos. A sociedade tem que perceber que as mães precisam de tempo para os filhos. As escolas têm que perceber que nem sempre é possível ir buscar as crianças às 6 em ponto.

É preciso bom estômago para defender aquilo em que acreditamos. É preciso coragem para ser diferente.

 

O meu desafio aqui, hoje, é especial.

É mudar as mentalidades, porque tem que ser. É mudar as mentalidades, “para dentro”, começando por nós próprios.É abandonar a visão que temos, defendendo o mesmo, pelos motivos adequados ao contexto.

Se queremos ser ouvidos, se queremos ser compreendidos, primeiro temos que compreender.Temos que compreender os contextos e os outros. Temos que perceber quais são os argumentos válidos e porque é que estamos a fazer as coisas. Temos que escolher os nossos aliados e conhecê-los. Temos que conquistar os nossos direitos, não como pessoas individuais e diferentes, mas como pessoas iguais a tantas outras.É muito bonito assumir o direito à diferença, mas neste momento parece-me mais eficaz conquistar o direito a pertencer.Os patrões estão em luta com os custos, com os aumentos, com a perda de clientes e de mercado. E é fundamental que essa seja a nossa preocupação principal enquanto trabalhadores.

Como é que podemos fazer a diferença nesta luta tão difícil, como é que podemos ajudar a recuperar clientes e a ganhar mercado. Que ideias temos nós para oferecer? Que esforços? Não é preciso trabalhar mais meia hora. É preciso trabalhar muito nas horas em que lá estamos, focalizados nesta preocupação e apenas nesta preocupação.Quanto aos colegas, o problema é muito maior do que a empresa em que estamos inseridos.As pressões são muito mais profundas do que a “inveja” da pessoa que se senta na secretária ao lado da nossa.Todos os líderes se movimentam para pôr as pessoas, umas contra as outras.O primeiro-ministro vem à comunicação social dizer que os funcionários públicos ganham de mais.

Os privados gritam contra as regalias dos funcionários públicos.Os serviços de comércio e turismo gritam, contra o aumento do IVA, e de repente, um setor unido separa-se entre hotelaria e restauração. Está assim em todo o país, em todos os setores de atividade, nunca foi tão nítido como nas últimas greves, em que os argumentos fazem todos sentidos, mas as pessoas ficam contra porque individualmente prejudicadas. Separados não vamos a lado nenhum. Sem nos entendermos quanto aos valores importantes não conseguimos dar a volta por cima. Estas pessoas têm todas imensa força de pressão, o problema é que estão a exercê-la contra o vizinho do lado. E sempre que virem um benefício, uma vantagem, alguém que conseguiu ficar um bocadinho melhor, vão ser contra. E vamos derrubando, um a um, todos os que lutaram.

Porque estamos a lutar pelo lado contrário, contra nós próprios.

 

Quem são os nossos aliados? Como podemos conquistá-los? Os nossos aliados são todos os portugueses, porque a luta é comum. Até os políticos querem levantar o país. Todos nós queremos produzir mais. Todos nós queremos ser mais rentáveis e competitivos. Todos nós queremos bons resultados nas empresas, para que isso sustente o nosso nível de vida.(E não sou daquelas que acha que vivemos acima das nossas possibilidades!) A melhor forma de conquistar os outros para uma luta que já é deles, é percebê-los. É conhecer as suas prioridades e dar-lhes a força da nossa necessidade. Dar aos outros. Apenas isso. Dar força, dar coragem, dar atenção, dar voz, dar argumentos... aos outros. Porque se dermos, estamos a conseguir para nós próprios. Quando conseguimos que haja horas extraordinárias para quem fica até mais tarde, conseguimos ser deixados em paz quando não o fazemos e até temos mais moral para esses protestos. Quando conseguimos que haja promoções para aqueles que se empenham em motivar os outros, estamos a conseguir chefias que se sentem apoiadas e devolvem. Quando conseguimos que a empresa tenha lucros, estamos a conseguir assegurar os nossos postos de trabalho.

 

A flexibilidade?

Essa vem porque tem que ser. Vem porque a sociedade precisa de educar a sua juventude.Vem porque neste momento o futuro obriga a ter jovens bem formados. Os nossos aliados nesta batalha? As escolas, as faculdades, os centros de integração de jovens marginais, a polícia, as prisões.Todos os que lidam com a violência juvenil sabem reconhecer o papel das mães. São esses que nos vão ajudar a lutar por uma sociedade mais equilibrada e em que a família faça sentido. Não as empresas. As empresas vão reconhecer o esforço e o profissionalismo, vão valorizar quem gera lucros e abre mercados. Como deve ser. A nossa luta é sermos profissionais e respeitados. Não que os outros acreditem no mesmo que nós ou usem as nossas palavras.

 

A nossa luta é por justiça e respeito, para todos. O desafio é esse, e já sei que vou ser muito criticada, dar. Dar ao mercado de trabalho, para que se torne mais eficiente e mais respeitador dos trabalhadores todos. Numa visão diferente do que é a minha necessidade pessoal.



publicado por flexbilizar ~ conciliar às 16:12
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
Flexibilizar com Austeridade

Ana Teresa Mota | Consultora em Recursos Humanos

 

Agora sim os patrões descobrem o verdadeiro sentido da flexibilização e os números que vão saindo nos jornais económicos são mesmo aterradores. Desemprego sem justa causa, despedimentos em massa sem indemnizações, cortes nos fundos de desemprego e nos apoios às famílias, aumento significativo do custo de vida, aumento dos horários de trabalho sem aumento de salário.... será preciso acrescentar os números macro-económicos que garantem que o nosso futuro ? E é apenas, mais do mesmo. Ser pai/mãe nestas alturas é mais duro. É duro porque se aproxima o natal. É duro porque educámos os nossos filhos num contexto de abundância ou pelo menos de esperança nas possibilidades imensas de futuro. É duro porque lutamos todos os dias por estar mais presentes e menos focalizados no trabalho. É duro porque o medo passa dos adultos para as crianças e não temos respostas para lhes dar.

Mas nem tudo podem ser más notícias. Porque nós temos que dar a volta por cima. Nós temos que ser capazes de respirar fundo e partir para a luta. Para lhes dar o que precisam. Para lhes oferecer sonhos e futuro. Para lhes dizer que batalhando ninguém morre na praia. Nós, pais e mães, temos motivação. Temos como ouvi recentemente, em citação do Sérgio Godinho, uma força a crescer-nos nos dedos e uma raiva a nascer-nos nos dentes. E, como não podemos morder, vamos usar a força dos dedos.

Os patrões precisam de gente motivada nestas alturas, porque estão a retirar os direitos a toda a gente. Precisam de quem corra por gosto, porque vão continuar a tirar até não haver quase nada. E nós somos essa força de trabalho disposta a trocar o aumento que não vem por umas horas para a criança. Nós somos essa força de trabalho disposta a multiplicar o sorriso porque vamos para casa mais cedo para estar com as crianças. E quando os patrões só sabem tirar, de menos em menos até que não sobre nada vão precisar de ferramentas de motivação. Nós sabemos do que precisamos. Nós podemos avançar de peito feito, cheios de coragem, porque desistir não é uma possibilidade, baixar os braços não consta na nossa listinha de opções. E podemos fazer cara bonita para os clientes e duplicar os esforços.

Precisamos de tão pouco. Precisamos apenas de respeito pelas nossas opções de vida. Precisamos apenas de um espaço para dar atenção à família. Continuando a produzir. E não perdemos tempo no cafézinho a discutir o orçamento de estado, porque queremos sair a horas. Não perdemos energia a dizer mal do governo aos clientes, porque queremos cumprir objetivos.

Está chegada a hora de alguém valorizar o nosso esforço, o nosso empenho, a nossa motivação. Já não somos aqueles que só querem saber de sair a horas. Agora somos aqueles que não se queixam, que não choramingam, que não fazem política no escritório. Somos aqueles que só querem que os deixem trabalhar.

Este movimento pode ser discreto, mas também pode ser óbvio.

E esse é o desafio que vos deixo. Dizer bem alto : não discuto política porque tenho mais do que fazer. Dizer para quem quer ouvir, e para quem não quer já agora : não perco tempo a gritar com o governo porque prefiro falar com clientes que me ouvem.

Eu sou mãe. Tenho que ter esperança. Tenho que ter energia. Tenho que ser capaz de produzir. Tenho que estar motivada. Resta-me desejar-vos a todos, muito boa sorte. E um arco-íris para passar por cima das nuvens negras e chegar com um sorriso ao tesouro que temos em casa.



publicado por flexbilizar ~ conciliar às 17:34
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
Uma experiência de super-flexibilidade

 

Trabalho em investigação, com alguém que já me conhece há alguns anos e tem confiança em mim. Isso tornou possível que, perante o meu pedido para trabalhar a partir de casa nas alturas em que isso me fosse necessário, tenha sido confrontada com a resposta que toda a mãe-trabalhadora quer ouvir: “o seu trabalho é por objectivos, trabalhe quando e onde quiser.”

 

E assim tem sido. O trabalho a partir de casa exige pouco investimento para a maioria das pessoas nos dias que correm – quem não tem computador e ligação à net? Exige, sobretudo, disciplina, seriedade e capacidade de organização. Essas características também não costumam ser alheias a alguém que está habituado a gerir filhos, trabalho e vida pessoal. A maior desvantagem pode ser o isolamento mas, no meu caso, como mantenho o posto de trabalho na universidade e vou lá regularmente, não há sequer o perigo de passar a viver eternamente de pantufas e colar-me como sanguessuga a qualquer adulto inteligente que me apareça ao fim do dia (que foi o que aconteceu na minha primeira experiência de teletrabalho, há anos atrás).

 

Que balanço, então, desta experiência ainda recente? Muito positivo. É claro que uma pessoa acaba por trabalhar mais porque quer aproveitar para fazer isto, aquilo e aqueloutro. As pausas desaparecem e, quando damos por isso, já passou o dia inteiro – mas fez-se muita coisa. E não há nada que pague a possibilidade de demorarmos mais uns minutos na despedida dos filhos na escola, ou de conversar com alguém que encontramos e não víamos há muito. Se trabalhar é alugarmos a nossa força de trabalho por algumas horas, teletrabalhar é sermos também nós um bocadinho os “senhorios” dos nossos dias.

 

www.gralhadixit.blogspot.com



publicado por flexbilizar ~ conciliar às 11:04
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