Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
O crime de ter um filho
Trabalhava na empresa há 10 anos. Era efectiva, tinha um bom ordenado, seguro de saúde e outras regalias. Sempre que era preciso, ficava até mais tarde. Por vezes, na semana mais "trabalhosa" do mês, e por exigências da actividade, pediam-nos para ficarmos toda a semana das 9h às 20h. Eu ficava. Aliás, quase todos os dias ficava mais tempo, porque nunca gostei daquela coisa de me levantar da cadeira às 18h01, achava que ficava mal. Estava sempre disponível para trabalho extra e até trabalhar aos sábados sem qualquer retribuição.
E assim passaram os anos, até que engravidei. Meti baixa no final da gravidez, gozei 5 meses de licença de maternidade, mais os 3 meses da licença complementar paga a 25%, mais um mês de férias. No total, estive em casa com o meu filho até ele ter 9 meses de idade.

(Um pequeno àparte: Procurámos infantários: existem os privados, que custam 425 euros por mês; e depois existem os públicos que, ou só aceitam crianças a partir dos 3 anos, ou só a partir de 1 ano, ou até aceitam bebés, mas nunca têm vagas.... Lá acabámos por descobrir uma IPSS onde se paga conforme os rendimentos dos pais (como deviam ser todos), mas é longe de casa e dos nossos locais de emprego, meu e do pai. Esta é outra questão relacionada com tudo isto que também precisava de levar uma grande volta.)

E assim começou a nossa nova vida de arranjar o miúdo de manhã, vestir (em mim) uma coisa qualquer e rezar para não ter calçado um sapato de cada par, a aflição de ter que chegar a horas, sair de casa, levar o miúdo ao infantário, voltar para o carro, ir para o trabalho, procurar lugar para estacionar às 8h55, para entrar às 9h, porque se chegasse um minuto atrasada era logo uma tempestade, chamada à atenção e tinha que compensar os minutos na hora de almoço (nem que ficasse sentada esses minutos a olhar para o monitor). Tinha direito às 2 horas de aleitamento e a empresa concordou que eu fizesse o horário das 9h às 16h.

Desde o primeiro dia que me foi dito que, agora que tinha regressado, tinha que "compensar" a empresa pelo "tanto tempo" que tinha estado ausente (isto dito em tom recriminatório, como se eu tivesse estado de férias nas Seychelles). Foi-me também questionado, repetidas vezes, porque é que eu saía mesmo às 16h. Que era um direito que eu tinha, sim, mas já que tinha o miúdo num infantário, para que é que eu queria sair às 16h???? Como quem diz, para ir passear com ele para a esplanada? Sim, eu ia buscá-lo à escola e ia passear com ele e aproveitar o sol. Era um direito meu. E sim, saía quase sempre às 16h em ponto.

Entretanto o miúdo fez um ano e passei a trabalhar das 9h às 18h. Aí tinha mesmo que sair às 18h, porque o infantário fecha às 19h, e como já disse, ficava longe do local de trabalho, e com o trânsito das 18h... estão a ver.) Também passei a faltar muito mais do que antes, porque o miúdo fez febres, bronquiolites e outros que tais, durante todo o Inverno. (Eu faltava, e não o pai, porque eu estava efectiva, e o pai a contrato, e achámos melhor não fazer "tremer" o posto de trabalho dele). Também deixei de fazer Sábados.

Houve alguns dias em que fiquei até mais tarde, mas quando um dia pedi (e tinha que se pedir muito por favor, com muita submissão e muito jeitinho) para um dia sair mais cedo, numa sexta-feira à tarde, para ir à festa de Natal do infantário, e mesmo propondo eu mais tarde compensar aquelas horas, foi muito complicado.

Resumindo: fui muito olhada de lado, fui abertamente repreendida, ameaçada de despedimento, pressionada, confrontada, questionada a veracidade das justificações médicas que apresentei para acompanhar o meu filho a exames médicos, etc.

E o que também me chocava muito era a atitude das minhas colegas: as que não eram mães, não queriam saber, as que eram, tinham uma postura de "isto é assim, temos é que aguentar e calar", que me fazia, e ainda me faz, muita confusão. Algumas até parecia que tinham orgulho em dizer que deixavam o filho ou filha na escola às 6h30 da manhã. Ou em dizer que viam o filho uma hora por dia.

Resumindo outra vez: despedi-me. Sim, assim. Sim, sem direito a subsídio de desemprego nem a nada.

Hoje levo o meu filho ao infantário às 10h, vou buscá-lo às 16h. (Curiosamente, encontro lá muitas mães e pais a essas horas. Estarão todas desempregadas? Ou têm todas um part time? Não sei.) Se está doente, fica em casa comigo. Se (uma vez por outra) nos faz passar uma má noite, em que chegamos às 7h da manhã e dormimos três horas, ficamos em casa a dormir. Tenho tempo para tudo e mais alguma coisa, mas não tenho ordenado!

Comecei a procurar um emprego em part time. Cheguei à conclusão de que não existem empregos decentes em part time em Portugal! Existem, (sobretudo em call centers), mas são pensados para jovens, estudantes, e escusado será dizer, mal pagos. Não, eu não quero um part time a ganhar o mesmo que ganhava! Mas gostava de saber porque é que um escritório que precisa de uma secretária, não pode contratar uma pessoa de manhã e outra à tarde? Aliás, eu nem queria um part time. Queria trabalhar das 10h às 17h. Por que não? Digam-me quais são as toneladas de trabalho que a maioria das pessoas executam das 9h às 10h e entre as 17h e as 18h???

Inscrevi-me em algumas agências de trabalho temporário, recrutamento, etc. Já aprendi que não posso dizer que quero um part time, nem que tenho um filho (oh pecado dos pecados!), pois passo a ser tratada como se tivesse dito que saí agora da prisão onde cumpri pena por homicídio, ou seja, nunca mais me telefonam.

Enfim, são bastante boas as leis que existem em Portugal, mas não chegam.
A possibilidade que existe de pedir à entidade patronal para passar a trabalhar em part time é muito bonita, mas com metade do ordenado, não. Deveria ser possível, apenas por ter filhos pequenos, passar a part time, mas com 70 ou 75% do ordenado, já não digo o ordenado por inteiro.
A licença de maternidade também é muito bonita, mas se não existem infantários (ou só existem para os ricos), então deveria ser possível ficar em casa (com ordenado, ou uma parte dele) durante os primeiros 3 anos de vida da criança. E que tal o candidato/a a emprego que tem filhos, ter prioridade no acesso ao emprego?
Além disto, é urgente mudar mentalidades!
Se o País (e a Europa) estão envelhecidos, é porque não somos assim tantos a ter filhos. Se não somos assim tantos, o que é que custa dar a esses poucos corajosos/malucos que têm filhos, alguma flexibilidade?

Ana Pires


publicado por flexbilizar ~ conciliar às 15:56
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2 comentários:
De charlote a 17 de Maio de 2011 às 16:52
O meu emprego (não é efetivo, é um contrato a termo) é das 10h às 17h. Tenho colegas que trabalham das 9h às 16h. É possível. Eu também não sabia que era, mas saiu-me esta sorte grande quando o miúdo tinha três meses. Abdiquei do resto da licença e das horas de amamentação, mas achei que tinha de ser. Isto para dizer que: já quando escrevi o meu texto pensei que, se calhar, o que nós queremos quando falamos num trabalho a tempo parcial nem é bem um trabalho a tempo parcial, é um trabalho com um horário mais ou menos decente.


De Sophis a 19 de Maio de 2011 às 00:34
Adorei o texto. E vou partilhar. É preciso partilhar estas coisas.


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