Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011
Compreender, focalizar, pressionar, mudar

Ana Teresa Mota | Consultora de Recursos Humanos

 

Nos tempos que correm a flexibilidade parece um mito e é cada vez mais complicado  conseguir mudanças que não estejam diretamente associadas com custos, junto dos patrões, ou com benefícios, junto dos colegas.

 

É preciso mudar as mentalidades, disso ninguém tem dúvidas. O problema é por onde começar e o que fazer. Vamos começar por nós? Começar por mudar a forma como vemos as coisas? Ou como as dizemos? É que se não tenho dúvidas de que a nossa família precisa de tempo (se não também não estaria aqui), tenho muitas dúvidas quanto à forma como por vezes dizemos o que queremos, ou defendemos as nossas posições.

 

Quando falamos de mudar mentalidades, falamos usualmente “para fora”. Os outros precisam de mudar de mentalidade. Os patrões têm que perceber que o trabalho não é tudo. Os colegas têm que perceber que cada um tem direito às suas próprias necessidades, prioridades e objetivos. A sociedade tem que perceber que as mães precisam de tempo para os filhos. As escolas têm que perceber que nem sempre é possível ir buscar as crianças às 6 em ponto.

É preciso bom estômago para defender aquilo em que acreditamos. É preciso coragem para ser diferente.

 

O meu desafio aqui, hoje, é especial.

É mudar as mentalidades, porque tem que ser. É mudar as mentalidades, “para dentro”, começando por nós próprios.É abandonar a visão que temos, defendendo o mesmo, pelos motivos adequados ao contexto.

Se queremos ser ouvidos, se queremos ser compreendidos, primeiro temos que compreender.Temos que compreender os contextos e os outros. Temos que perceber quais são os argumentos válidos e porque é que estamos a fazer as coisas. Temos que escolher os nossos aliados e conhecê-los. Temos que conquistar os nossos direitos, não como pessoas individuais e diferentes, mas como pessoas iguais a tantas outras.É muito bonito assumir o direito à diferença, mas neste momento parece-me mais eficaz conquistar o direito a pertencer.Os patrões estão em luta com os custos, com os aumentos, com a perda de clientes e de mercado. E é fundamental que essa seja a nossa preocupação principal enquanto trabalhadores.

Como é que podemos fazer a diferença nesta luta tão difícil, como é que podemos ajudar a recuperar clientes e a ganhar mercado. Que ideias temos nós para oferecer? Que esforços? Não é preciso trabalhar mais meia hora. É preciso trabalhar muito nas horas em que lá estamos, focalizados nesta preocupação e apenas nesta preocupação.Quanto aos colegas, o problema é muito maior do que a empresa em que estamos inseridos.As pressões são muito mais profundas do que a “inveja” da pessoa que se senta na secretária ao lado da nossa.Todos os líderes se movimentam para pôr as pessoas, umas contra as outras.O primeiro-ministro vem à comunicação social dizer que os funcionários públicos ganham de mais.

Os privados gritam contra as regalias dos funcionários públicos.Os serviços de comércio e turismo gritam, contra o aumento do IVA, e de repente, um setor unido separa-se entre hotelaria e restauração. Está assim em todo o país, em todos os setores de atividade, nunca foi tão nítido como nas últimas greves, em que os argumentos fazem todos sentidos, mas as pessoas ficam contra porque individualmente prejudicadas. Separados não vamos a lado nenhum. Sem nos entendermos quanto aos valores importantes não conseguimos dar a volta por cima. Estas pessoas têm todas imensa força de pressão, o problema é que estão a exercê-la contra o vizinho do lado. E sempre que virem um benefício, uma vantagem, alguém que conseguiu ficar um bocadinho melhor, vão ser contra. E vamos derrubando, um a um, todos os que lutaram.

Porque estamos a lutar pelo lado contrário, contra nós próprios.

 

Quem são os nossos aliados? Como podemos conquistá-los? Os nossos aliados são todos os portugueses, porque a luta é comum. Até os políticos querem levantar o país. Todos nós queremos produzir mais. Todos nós queremos ser mais rentáveis e competitivos. Todos nós queremos bons resultados nas empresas, para que isso sustente o nosso nível de vida.(E não sou daquelas que acha que vivemos acima das nossas possibilidades!) A melhor forma de conquistar os outros para uma luta que já é deles, é percebê-los. É conhecer as suas prioridades e dar-lhes a força da nossa necessidade. Dar aos outros. Apenas isso. Dar força, dar coragem, dar atenção, dar voz, dar argumentos... aos outros. Porque se dermos, estamos a conseguir para nós próprios. Quando conseguimos que haja horas extraordinárias para quem fica até mais tarde, conseguimos ser deixados em paz quando não o fazemos e até temos mais moral para esses protestos. Quando conseguimos que haja promoções para aqueles que se empenham em motivar os outros, estamos a conseguir chefias que se sentem apoiadas e devolvem. Quando conseguimos que a empresa tenha lucros, estamos a conseguir assegurar os nossos postos de trabalho.

 

A flexibilidade?

Essa vem porque tem que ser. Vem porque a sociedade precisa de educar a sua juventude.Vem porque neste momento o futuro obriga a ter jovens bem formados. Os nossos aliados nesta batalha? As escolas, as faculdades, os centros de integração de jovens marginais, a polícia, as prisões.Todos os que lidam com a violência juvenil sabem reconhecer o papel das mães. São esses que nos vão ajudar a lutar por uma sociedade mais equilibrada e em que a família faça sentido. Não as empresas. As empresas vão reconhecer o esforço e o profissionalismo, vão valorizar quem gera lucros e abre mercados. Como deve ser. A nossa luta é sermos profissionais e respeitados. Não que os outros acreditem no mesmo que nós ou usem as nossas palavras.

 

A nossa luta é por justiça e respeito, para todos. O desafio é esse, e já sei que vou ser muito criticada, dar. Dar ao mercado de trabalho, para que se torne mais eficiente e mais respeitador dos trabalhadores todos. Numa visão diferente do que é a minha necessidade pessoal.



publicado por flexbilizar ~ conciliar às 16:12
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3 comentários:
De alguém que se queixou... a 17 de Novembro de 2011 às 00:21
Julgar nunca é uma forma de conciliar... no seu texto parece alertar para o facto de existirem empregados que não se preocupam com o sucesso das suas empresas e apenas com o seu umbigo, utilizando como desculpa a "família". Será que li bem? Onde foi tirar semelhante ideia? Estou plenamente de acordo em relação ao equilíbrio de que fala no seu texto, onde todos ficam a ganhar e o que justifica a tal "flexiblidade". Se para isso bastar uma conversa amena com o empregador, óptimo. Mas isso nem sempre acontece, como saberá. Nem sempre é permitida a tal flexibilidade. E agora? Quem está mal, que se mude, seja flexível. Se o patrão a discrimina por ter engravidado, ou por ter de faltar 2h para ir ao médico não se queixe... isso fazem os meninos na creche. Mude de mentalidade, o mundo dos crescidos precisa de quem dê lucro, acorde para a vida! E lembre-se se der ao seu empregador dedicação, tempo e todo o lucro possível terá a sua merecida e justa recompensa! Mas sobretudo não se queixe, não fica bem. Já agora, porque acha que iria ser criticada, será a sua opinião assim tão diferente da maioria?


De Ana Mota a 18 de Novembro de 2011 às 13:31
Olá "alguém que se queixou".
Antes de mais obrigada por protestar! :)
Achei que ia ser criticada porque os inflexíveis estão dos dois lados.
A família nunca é, para mim, uma desculpa. É a grande prioridade da minha vida e tenho pago sempre os custos das minhas opções. Algumas vezes bem altos.
O problema está na forma como dizemos as coisas. Acho, honestamente, que as coisas agora ainda estão piores, mas nunca vi bons resultados na atitude de reivindicação e protesto. Não resulta, na minha experiência.
Resulta construir, resulta juntar as pessoas em torno de ideias positivas, resulta falar de forma amena sempre que puder. Se o patrão é discriminador e nada de pacífico resultar, comece à procura de alternativas, porque os protestos também não vão resultar.
Embirro com a queixa e não é uma questão de "ficar bem", é porque a considero pouco eficaz, em contexto laboral. Mas isso sou eu. Cá ficarei à espera que me alerte para os casos de sucesso em que a queixa resultou, com o tal patrão com quem não adianta conversar.


De Carla R. a 18 de Novembro de 2011 às 12:21
Falando no geral, as relações que têm sucesso, são interessantes para todas as partes. Numa relação de trabalho, o empregado, tal como o empregador, têm que ganhar com a colaboração, caso contrário, entra-se num esquema doentio. Se, por um lado, sabemos que precisamos de flexibilidade para conseguirmos conciliar, também é verdade que a empresa precisa de produtividade. O que propomos é um aumento de produtividade durante menos tempo de trabalho.
Depois existem casos difíceis, em que apenas uma das partes é satisfeita e aí entra este movimento que promove o diálogo. Se a empresa não compreende e respeita o que os seus trabalhadores precisam algo tem que mudar. E a mudança pode passar por encontrar aliados, mudar de atitude ou recorrer a advogados. Cada caso, é um caso.


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