Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
Trabalho em part-time
ANA TERESA MOTA | CONSULTORA EM RECURSOS HUMANOS  

Aqui temos um dos melhores exemplos de conciliação entre a vida familiar e a vida profissional, uma vez que permite um horário verdadeiramente distribuído, sem que exista na realidade uma dupla jornada de trabalho feita nas horas de descanso como acontece na maioria das modalidades.

E apresenta a sua quota parte de problemas, por um lado para os trabalhadores porque representa um menor rendimento, por outro lado para as empresas por representar uma menor disponibilidade. Visto na perspetiva correta poderíamos eventualmente considerar que os trabalhadores conseguem gerir melhor o seu tempo familiar reduzindo algumas despesas essenciais que compensam o menor rendimento e que as empresas conseguem uma maior produtividade dado um menor cansaço e maior focalização dos trabalhadores.

Mudar mentalidades é isso mesmo.
Alterar a forma de ver as coisas e neste caso parece-me absolutamente indispensável, para que o mercado floresça, quer na oferta, quer na procura.

Para os trabalhadores a ideia de ver reduzido o seu salário para metade pode parecer à primeira vista assustadora, mas que tal acrescentar algumas informações importantes, como dispensar o ATL porque se conseguem tirar as crianças da escola à hora a que termina, como dispensar as despesas de refeições porque há mais tempo para preparar a comida em casa, como reduzir as despesas de gasóleo ou o tempo de transportes porque se evitam as horas de ponta. Já para nem referir as despesas extra que significam uma empregada doméstica, prendas compradas à pressa, transportes escolares, lanches de pastelaria. Importante mesmo é fazer as contas antes de afastar a ideia. Porque às vezes resulta mesmo.

Em relação às empresas a grande dificuldade está mesmo em sugerir. Não é fácil dizer ao patrão que o nosso trabalho se pode fazer em part-time e que retira alguma vantagem em ter duas pessoas a fazer um lugar e daí que a minha sugestão seja sempre, dar algo mais. Redução de salário para um pouco menos do que a metade ou tarefas acrescentadas dado que duas pessoas mais focalizadas conseguem mesmo fazer um pouco mais. Não é uma posição simpática, mas os trabalhadores também ganham “um pouco mais” do que o tempo para a família, ganham tempo para si mesmos, ganham menores níveis de stress, ganham em qualidade de vida.

E porque estamos num grupo e a falar de mudar mentalidades, mais do que resolver situações concretas, creio que posso adiantar o que me parece ser ainda mais eficaz – é que nas situações de recrutamento, quando é preciso ir buscar alguém para uma tarefa concreta, se virmos que na empresa até faria sentido um part-time... sugerir isso mesmo. Sugerir que o novo lugar seja ocupado por duas pessoas em vez de uma. Uma empresa que abre a porta para o primeiro part-time, está no bom caminho para reconhecer que algumas pessoas preferem mais tempo para conciliar os seus mundos.


publicado por flexbilizar ~ conciliar às 11:03
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4 comentários:
De calita a 8 de Junho de 2011 às 14:39
Eu comecei a trabalhar quando andava a estudar. No liceu fui empregada de escritório e na faculdade assistente de estomatologia, ambos em part-time. Não tenho dúvidas que esta é a melhor modalidade quando se quer conciliar vida pessoal com profissional, mas acredito que seja difícil para muita gente viver com meio salário. De qualquer forma é como a Ana Teresa Mota diz: "Importante mesmo é fazer as contas antes de afastar a ideia. Porque às vezes resulta mesmo."


De Anónimo a 8 de Junho de 2011 às 15:05
Ana, como todos os teus artigos, este é excelente e oportuna.
Como o que se pretende é mudança de mentalidades, é importante dar uma nova perspectiva do trabalho e do tempo que despendemos com ele.
Todos os trabalhadores, para além da profissão, têm vida própria, vida pessoal, afectiva, familiar, social que devem cuidar e estimular. Por isso, urge acabar com o mito de que o trabalhador competente e qualificado é aquele que mais tempo fica no local de trabalho ou o que mais tempo dedica à sua actividade profissional.
A nossa profissão deve ser significativa e prazerosa, mas não tem que me obrigar a preterir a minha familia ou a mim própria como pessoa.
Muitas vezes, o montante que se ganha é a razão ou desculpa para não optar por trabalho a tempo parcial. Quando, seria apenas necessário redefinir as nossas prioridades.
Eduarda Maria Castro


De Carla Rodrigues a 8 de Junho de 2011 às 15:29
Não sei se é preciso mudar a sociedade ou apenas dar um jeito a algumas prioridades. A OCDE emitiu recentemente um estudo onde se concluia que a partir de um certo rendimento que permite preencher as condições essenciais para a vida (alimentação, habitação, educação, etc) o rendimento extra não contribuia para um aumento de sensação de bem-estar e felicidade. A partir de um certo patamar de rendimento era o tempo extra que poderia aumentar o sentimento de bem-estar.
Se pensarmos nas empresas, pelo que tenho visto, quem esta em regime de part time anda menos cansado, mais motivado e mais produtivo, mas esta é apenas uma constatação das experiências que me rodeiam, não encontrei estudos sobre este assunto.
I'm a part time lover !


De Anónimo a 8 de Junho de 2011 às 15:39
Pois, a verdade é que o tempo livre hoje é tão precioso quanto o dinheiro. O que poderia implicar que se começasse a pagar às pessoas com esse mesmo tempo livre. O meu chefe achou a ideia um pouco peregrina demais. Quando lhe pedi um aumento e ele me disse que de facto eu ganho pouco para o trabalho que faço mas a situação da empresa não permite aumentos, propus-lhe que nesse caso me poderia reduzir o horário. Continuava a ganhar o mesmo trabalhando menos tempo todos os dias, originando uma situação mais justa. Ele achou uma certa graça à ideia. Aliás, ainda se deve estar a rir. E eu continuo na mesma. Mal paga e a trabalhar o mesmo número de horas.

Patrícia


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