Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
Diga fleeexiiiiiiiiiiiiibiiiliii-daaaaaaaaddeeeeee
Comecei a trabalhar aos 18 anos.
Era num atendimento telefónico, trabalhava das 8h00 às 12h00 e ganhava bem para o tempo que ali estava. Não tinha tempo para respirar, tinha as chamadas cronometradas, tinha de sorrir sempre (sim, o sorriso ouve-se ao telefone, não sabiam? Essa ficou-me desde há muitos anos, e continua a ser verdade), tinha de pedir autorização para ir à casa de banho, tinha 10 minutos a meio da manhã para comer qualquer coisa e o telefone não podia tocar mais de 2 vezes até ser atendido. Tudo cronometrado ao segundo, e não podia falhar nenhum, ou era descontado no vencimento.
Ao longo de 6 anos fiz o mesmo atendimento telefónico, em várias empresas, com vários horários (entretanto passei a tempo inteiro), mas sempre com as mesmas regras rigorosas de horário a cumprir. Entende-se até certo ponto – se é um atendimento telefónico, há clientes à espera de serem atendidos, e dentro daquelas horas de funcionamento. (flexi-quê?)

Quando uns anos depois chego a uma outra empresa onde me disseram que o horário de trabalho era das 9h30 às 18h30, com hora e meia de almoço, mas que esses horários eram flexíveis, desde que deixasse as minhas tarefas todas feitas diariamente. Deram-me a chave da porta e pouco mais disseram. Aprendi depressa que precisava da chave se chegasse às 9h30 – era a única. Aprendi na mesma semana que a hora e meia de almoço não era usada por ninguém – almoçavam todos no café do prédio onde a empresa funcionava, para não perderem tempo, e a ninguém passava pela cabeça aproveitar esse tempo deles/nosso para passear na avenida (5 de Outubro em Lisboa, neste caso), ir às compras, ver montras, etc. Custou-me um bocadinho mais perceber para que raio queriam eles esse tempo, se ninguém começava a produzir nada antes das 16h. Pois, essa era a hora de ponta ali. Começava então o expediente, que, contado para fazer as 7h30 de trabalho, nunca acabava antes das 19-20-21-22h. Eu, que até não tinha nada para fazer (??!??) fora dali, custava-me passar todo o dia sem fazer nada e depois começar a trabalhar pela noite dentro. Mas, como vi que começava a ser posta de parte se não entrasse no esquema, alinhei.

Até que cometi o crime de resolver casar-me. E como resolvi isso com um mês de antecedência, tive pouco tempo para os preparativos, e precisava da minha hora e meia de almoço, e do tempo depois das 18h30 para isso. NUNCA deixei trabalho por fazer, mas comecei a cumprir horário. Um dia adoeci – com direito a baixa médica e tudo, e 3 dias depois recebi uma carta registada a dizer que não me iam renovar o contrato.

Tinha desistido da minha “flexibilidade”.
Mudei entretanto para uma empresa onde o horário era 9-18h, não tinha códigos a marcar, podia ir ao café, à casa de banho ou dar um dedo de conversa com colegas à minha inteira vontade, confesso que foi difícil adaptar-me. Fui alvo de piadinhas dos colegas, pois estava sempre preocupada com o estar sentada à secretária, disponível, entrava à hora certa e saía à hora certa. Mas, desde que tivesse o meu trabalho em dia (que na altura até nem era muito), ninguém se aborrecia se eu estava ali ou estava na zona do café, ou a ler o jornal. Casada havia cerca de um ano, entretanto calhou engravidar. Estava ainda a contrato (de “estágio”, que se usava muito na altura), e tremi de medo – baseada na minha experiência na empresa anterior. O meu chefe ficou felicíssimo por mim, pôs-me completamente à vontade para tudo o que precisasse (nunca me aceitou uma justificação de falta médica ou outra), e 2 meses depois cumpriu o que me tinha dito quando me admitiu: passou-me para o quadro da empresa, com aumento de salário e tudo. Nunca tive aí problemas em sair mais cedo ou faltar para prestar assistência à minha filha, ir a festas no infantário ou qualquer outra coisa, e sempre fiz por ter o meu trabalho em dia – dava tudo à empresa, mas tinha dela tudo o que precisava.
Num sentido mais restrito (não podia vir trabalhar para casa porque as minhas funções não o permitiam), mas sabia que tinha a flexibilidade necessária na altura. (aaah, flexi-bilidade!)
A empresa seguinte passou por diversas fases.
Quando tudo sempre funcionou bem com responsabilização individual, eis que vem um relógio de ponto.
Ah, mas as minhas funções tinham então horário flexível. Mas isso é o quê, com um cronómetro preso ao dedo indicador? Resumidamente, tinha um período fixo em que tinha es estar lá, mas outro em que podia entrar e sair a horas diferentes, desde que cumprisse X por semana. Tivemos grandes brigas. Umas vezes ganhei, outras ganhou a empresa.

Actualmente deixo-os pensar que me dão uma certa liberdade (e dão!). Entretanto não tenho cartão, mas cumpro as horas flexíveis que devo trabalhar todas as semanas. Entro mais cedo e saio mais cedo, mas com muita frequência levo trabalho para casa. Tento despachá-lo depois de os miúdos estarem na cama, mas muitas vezes isso não é possível. Mas ao menos estou em casa, eles estão em casa e não nas respectivas escolas. Tenho o telemóvel disponível 24h/dia e ando sempre de portátil às costas.
Eles acham que me estão a dar uma benesse, eu acho que estou a ser um bocadinho enganada, mas com as condições actuais, deixo e não reclamo (muito). Vou fazendo passar a minha mensagem sempre que possível, mas não insisto. Não estou em condições de insistir muito.

Se as coisas podiam ser feitas de outra forma? Podiam… mas como dizem os outros, não era a mesma coisa.

Se eu podia ir para casa trabalhar durante pelo menos metade do meu tempo? Podia, mas nunca se colocou essa hipótese. Confesso, muito descontente comigo própria, que na actual conjuntura, tenho receio de o fazer.
 
FLEXIBILIDADE

Deixar de ser profissional e ser mãe a tempo inteiro? Não critico quem o faz, e muito menos quem tem de o fazer, mas eu por opção não o faria. Não nasci para isso, e dava com facilidade em louca ao fim do primeiro mês em casa, “apenas” a lamber as crias.

Mas ter a oportunidade de poder estar na escola às 17h30 para os ir buscar, em vez de os deixar por lá sem fazer nada até às 18h30 é um grande sonho meu. Poder dizer aos meus filhos que podem desistir de alguma das AEC (actividades de enriquecimento extra-curricular) porque não os satisfaz e estar com eles em casa a fazer outra actividade que os enriqueça ainda mais… era tudo o que eu queria.

Maior flexibilidade das empresas, para que as mães (e os pais) possam cumprir as suas funções noutro local físico que não os escritórios? Sem sombra de dúvidas, sou 500% a favor, mas sempre com responsabilização para ambos os lados.

É importante que as empresas saibam facilitar as coisas (elas próprias lucram no fundo, com menos gastos nos escritórios por exemplo), mas que o saibam fazer de uma forma responsável, coerente, digna e encarando-o como vantajoso para ambas as partes.
Mas é igualmente que esses trabalhadores saibam no que se vão meter. Sejamos francos – nem todas as pessoas sabem o que implica trabalhar a partir de casa. Estar agarrado ao computador, tendo o apelo da televisão, do sofá, da cama, do conforto do nosso lar, nem sempre é fácil, e nem todos conseguem fugir dessas tentações. Sei do que falo, assisti de perto a uma situação dessas.
É importante que esses trabalhadores façam por cumprir a sua parte, ajudando desta forma a mudar mentalidades, mostrando às empresas que isso é possível. Isto será trabalhar a tempo inteiro, de uma forma não-presencial.

Pessoalmente, é por isto que me bato.

Da vossa,
Sezifreda

http://im-possivel.blogspot.com/


publicado por flexbilizar ~ conciliar às 17:31
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