Quarta-feira, 4 de Maio de 2011
Fazer valer direitos
Vamos partir do princípio que os direitos são conhecidos... o texto do código de trabalho é bastante claro no capítulo da Maternidade/Paternidade e no das faltas justificadas.
São as consultas das crianças e as baixas das mesmas, são as férias em bloco com direito de preferência, são as reuniões nas escolas... o problema parece ser, não tanto o conhecimento, mas a forma de fazer valer direitos.
A actual mentalidade em relação aos direitos das pessoas dependem muito dos gestores e das respectivas preocupações, por isso com alguns pontos não há problemas e com outros é um drama. A palavra chave é depende.
E sim, temos direitos, mas o problema é a forma como os exigimos. Quem cumpre todos os seus deveres e é indispensável de tão bom profissional, pode exigir com má cara tudo o que quiser, tipo rei do mundo. Quem tem dificuldade em ser perfeito, como é o meu caso e o da maioria das almas, poderá descobrir que é muito mais eficaz seguir a estratégia que sugiro e vi resultar em tantas empresas.

Vocês já sabem como é que se fazem valer direitos e se precisarem de explicar aos vossos filhos a questão até parece bem simples. Como é que os vossos filhos devem fazer na escola, junto de professores, auxiliares e colegas, para exigirem os seus direitos? Regras simples:
1 – Ser sempre simpático e bem educado;
2 – Ser bom aluno, cumpridor das regras e respeitador dos outros;
3 – Perguntar, pedir e acima de tudo agradecer.

Vale para a vida toda. E quando pensamos nos conselhos que damos aos nossos filhos podemos aproveitá-los para nós mesmos – porque queremos sempre que sejam correctos mas que sejam tratados com justiça e respeito.

E agora como é que isto se passa para a vida real? Mais uma vez, é tão óbvio que nem sempre é visível.
1 – A postura de simpatia e atitude agradável para com os outros, assim como de cumprimento das mais elementares regras de boa educação são mesmo a melhor maneira de criar uma imagem de pessoa sensata, feliz, realizada, motivada. Não há nada pior do que a pessoa que se passa a vida a queixar e a choramingar, a falar mal do chefe pelas costas, em segredinhos e conluios nos corredores, mal humorado, agressivo, depressivo ou deprimente.... É fácil ter sempre um sorriso? Não, não é. A vida é muito muito dura. Mas não fica mais fácil se amarrarmos a tromba e se uma criança de 8 anos é capaz de esquecer as contrariedades e fazer um sorriso simpático, nós também somos.

2 - Eu que sou velha, aprendi há muitos anos, que a melhor maneira de fazer valer direitos é cumprir deveres. Há alguns deveres que fazem a diferença, como o dever de assiduidade e pontualidade, o dever de representação e o dever de respeito pela instituição. Não é isso que pedimos aos nossos filhos? Que sejam pontuais? Que cumpram as regras? Que evitem fazer figuras tristes ou desadequadas? Que se esforcem ao máximo para serem os melhores? Que se concentrem mesmo que esteja um dia lindo lá fora e os colegas não parem de conversar? Há uma coisa que todos sabemos, os melhores são sempre favorecidos, os melhores recebem sempre mais atenção e mais mimos, era verdade com os professores, é verdade com os chefes. Aprenderam na escola? Usem no trabalho.

3 – Finalmente a trilogia dourada: perguntar, pedir, agradecer. Perguntar qual é a melhor maneira de fazer as coisas, se as empresas têm recursos humanos é um bom ponto de partida ir lá perguntar como é que se pode flexbilizar o trabalho ou optimizar os tempos para garantir que estamos presentes para a família mas que não deixamos de ser excelentes como trabalhadores. Também podemos perguntar a colegas mais velhos como é que fazem para conseguir equilibrar as duas coisas. É muito frequente nas empresas haver vários casos de maior ou menor sucesso e podemos aprender com quem já conseguiu. Pedir ajuda é a segunda etapa, ao chefe, aos colegas, aos recursos humanos – preciso de ajuda porque está a ser difícil. Não é fácil pedir ajuda, mas pode operar milagres, porque as pessoas nos dão informação mas acima de tudo protecção. Por último, agradecer. Agradecer é a melhor maneira de garantir os direitos e o pleno usufruto no futuro, assim como potencia todas as garantias. Se hoje fomos à escola da criança e agradecermos efusivamente e em voz alta ao chefe porque nos “deixou” usufruir de um direito que temos, estamos a deixar todos os colegas tranquilos para gozarem dos seus direitos e assim mais gente a exigir produz mais resultados, mas melhor do que isso, a gratidão é um sentimento inspirador e o chefe vai sentir-se tentado a dizer que não foi nada, a destacar que merecemos porque trabalhamos bem e a facilitar futuras oportunidades de ser elogiado publicamente como uma “pessoa de bem”.

Se há lição que retiro de anos a lidar com pessoas é que quando tratamos as pessoas como se elas fossem “as maiores” estamos a trazer ao de cima tudo o que a pessoa tem de melhor. Vale pelo que vale, quem quiser que experimente e conte os resultados. E esta sim seria uma maneira bonita de começar uma revolução – com um sorriso, com alegria, com vontade de ajudar todas as pessoas a serem melhores, até os chefes!

Depois é uma questão de fazer contas. Podemos cortar nas despesas e optar pela vida no campo e viver só com um salário. Podemos gerir as nossas inseguranças e apostar na carreira independente. Mas também podemos apontar para duas alternativas: teletrabalho e trabalho em part-time. Existem algumas figuras que só conheço da função pública como as jornadas contínuas, que podem ser adaptadas nas empresas e em alguns casos com bastante sucesso em que as trabalhadoras deixam de ter hora de almoço e podem sair uma hora mais cedo. Depende das funções e das vantagens para a empresa.

Em relação a apostas mais estranhas de organização do trabalho há algumas figuras que podem ser úteis: levar trabalho para casa e criar a fama de estar a trabalhar até tarde mas ter o trabalho adiantado (lamento avisar que aumenta a carga de trabalho e não temos tempo para fazer concorrência aos colegas sem filhos!); gestão de tempo, nosso e dos outros, se nos especializarmos na matéria e começarmos a ajudar os colegas mais desorganizados, rapidamente a empresa se dará conta de que sabemos do assunto e mais aberta estará para as nossas sugestões; perspectiva da empresa que tem que sair a ganhar porque sim, e se os nossos argumentos não convencem o chefe porque ele é estúpido, ignorante, tacanho, arrogante, gosta de aborrecer.... então estamos a escolher mal os argumentos, porque se somos assim tão espertas, humildes e prontas para agradar, rapidamente conseguimos encontrar os motivos certos para a nossa flexibilidade.

Depois de ter passado por empresas diferentes e de ter visto muitas realidades profissionais em diferentes áreas do país e sectores de actividade, posso acreditar que “cada caso é um caso” e em todos existe uma solução. Depende da abordagem, da flexibilidade pretendida, do que pretendemos dar em troca.

Acho que a primeira dificuldade está em perceber que quando nós queremos ser mães e profissionais, estamos a aceitar o dobro do esforço. Queremos ter tudo o que tem uma mãe que está em casa e queremos ter tudo o que tem uma colega sem família – porque temos direito.
Até posso concordar que temos direito ao melhor dos dois mundos, mas também temos o dobro do trabalho, do esforço do stress.
Nós não compensaríamos de igual modo uma empregada doméstica que chegasse sempre atrasada, que faltasse imenso porque legalmente tinha direito aos dias para tratar dos filhos e que passasse o tempo a queixar-se dos seus legítimos direitos.... e outra que fosse cumpridora, bem disposta, disponível e motivada, mesmo que por vezes nos pedisse um dia para tratar dos seus rebentos arranjando maneira de nos compensar quanto mais não seja emocionalmente.

Estou à disposição se quiserem ver questões concretas, se tiverem perguntas directas sobre casos vossos ou conhecidos. Farei o melhor que sei. Não sou jurista, pelo que tenham cuidado com as alhadas em que se metem, mas tenho bastante experiência em ambientes laborais e posso dar dicas e ideias assim como quem está a ver de fora ;)


Ana Teresa Mota
Consultora em Recursos Humanos

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publicado por flexbilizar ~ conciliar às 09:16
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12 comentários:
De Ana Mota a 6 de Maio de 2011 às 14:12
Naná, se pediu e conseguiu - atingiu o objectivo.
Uma das coisas importante é sabermos escolher o que queremos e o preço que pagamos por isso.
Abriu a mão onde segurava o reconhecimento, para agarrar o tempo para a família.
A vida é assim mesmo.... não podemos ter tudo ao mesmo tempo.
É possível ter tempo e reconhecimento? É. Mas obriga a um esforço e um investimento que nem sempre valem a pena.
Acima de tudo obriga a ter uma noção muito clara do que é prioritário, do que é urgente e do que podemos dar de barato - como é o caso da opinião dos colegas que ainda não tiveram filhos.
Eu própria acredito que temos que escolher entre carreira e maternidade, entre os filhos e o marido, entre os amigos e os familiares, porque temos que definir prioridades.
A minha prioridade é a maternidade, não tenho dúvidas. Sacrifico a carreira, os amigos, o dinheiro, o que quiserem. Mas não são incompatíveis e não se eliminam mutuamente.
A dificuldade que por vezes encontro é interna, de mulheres que querem escolher a carreira, mas não se sentem no direito de recusar a maternidade já concretizada.


De isa a 18 de Agosto de 2015 às 20:43
Boa tarde tenho uma duvida sobre o pedido de flexibilidade de horário será que me pode ajudar?
Mesmo quem trabalha a part-time pode pedi-lo? Tenho horários rotativos e por vezes torna-se muito complicado fazer certos horários por causa do trabalho do meu marido.Pois tenho receio de solicita-lo e não poder usufruir dele ou ser mal interpretada pela minha entidade patronal (visto ser uma grande firma).


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