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Flexibilizar para conciliar

Flexibilizar para conciliar

Conciliação (França)

17.05.11, flexbilizar ~ conciliar
A duração do tempo de licença de maternidade depende do numero de filhos do casal, no caso de 1 ou 2 filhos, a licença é de 16 semanas (por norma, 6 antes da data prevista para o parto e 10 depois), mas a mãe pode-se organizar como preferir. Existe ainda uma licença extra de 14 dias antes do parto que deve ser aconselhada pelo médico. A empresa onde trabalhava assumiu desde o principio que ia ter direito a esta licença e, de facto, o médico aconselhou-me.
Os pais têm direito a 3 dias de licença nos 15 dias antes ou depois do parto e 11 dias suplementares nos primeiros 4 meses da criança.
Para além desta licença, a mãe ou o pai, têm o direito a uma outra chamada de parentalidade, é uma licença não paga que pode durar até aos 3 anos da criança (idade em que entra na pré-primaria), no final da qual a empresa é obrigada a receber o trabalhador. Durante esta licença a CAF (Caixa de subsidios familiares) paga uma indemnização que varia consoante o salario.

Os quadros superiores têm ausência de horario, mas são compensados com RTT (Redução de Tempo de Trabalho), por cada mês de trabalho, "ganha-se" 3 dias de RTT (total 22 dias extra), que se somam aos dias normais de férias. Esta medida surgiu com o objectivo de diminuir o desemprego e dar melhor qualidade de vida aos trabalhadores.

As mães e os pais têm direito a trabalharem apenas 4 dias, em vez de 5 dias por semana. Recebendo 80% do salario. O empregador não pode recusar este direito. Como as escolas não funcionam às 4as feiras, é a quarta-feira que as mães ou os pais não trabalham. Aqui, mais uma vez, a CAF tem um subsidio para compensar a diferença do valor.

As creches têm optimas condições mas são escassas na região parisiense, a maior parte dos casais têm que recorrer a amas. Existem varios tipos de modalidade, guarda partilhada (duas familias partilham a mesma ama, que fica alternadamente em casa de cada familia) ou assistente maternal (ama que fica com 3 crianças no maximo em casa dela). O ordenado minimo em França é de 1300 euros, mas existem ajudas do estado para se pagar a ama.

Existem as chamadas Halte-Garderie, para as crianças até aos 3 anos que não estão em creches. O objectivo é por um lado possibilitar a socialização da crianças com outras de mesma idade e adaptar-se à dinâmica de grupo, por outro, deixar respirar a mãe. A criança pode ficar até ao maximo de 12 horas por semana neste espaço.

A escola pré-primaria não é obrigatoria, mas é altamente aconselhavel. Na região parisiense (e em grandes aglomerados populacionais) começa aos 3 anos, no resto do pais ao 2 anos. Ha sempre vagas.

Acesso à informação : O site da CAF é claro e se houver duvidas pode-se enviar um e-mail personalizado. Na empresa em que trabalhava quando fiquei gravida existia um comité (obrigatorio) composto por trabalhadores voluntarios que me deram todas as informações que poderia precisar. Para fazer valer direitos, para além dos tribunais, existe uma instância, o Prudhomme, que ajuda a julgar casos de conflito de maneira rapida e gratuita, sem se ter que recorrer a um advogado, as empresas evitam causar problemas, quanto mais não seja porque sabem que os trabalhadores não vão hesitar a recorrer a esta instituição.

Não é um sistema perfeito, mas tem algumas pistas inspiradoras.
Carla R.

Conciliação (Dinamarca)

17.05.11, flexbilizar ~ conciliar
Vivo em Copenhaga e trabalho em investigação científica na Universidade de Copenhaga, tenho um filho de 2 anos.
Parabéns por este movimento espectacular e boa sorte com tudo. Quero dar o meu testemunho e espero que possa servir como exemplo de que é possível mudar mentalidades e melhorar a dinâmica familiar conciliando trabalho e família sem darmos todos em malucos histéricos.
Na Dinamarca a licença de maternidade é partilhada, pai e mãe têm quase obrigatoriedade de ficar em casa juntos as 2 primeiras semanas em que o bebé nasce e depois têm cerca de 8 meses que podem dividir
como quiserem com ordenado completo (só um é que fica em casa). Se um deles ficar um ano completo o ordenado fica reduzido a partir dos 8 meses (ganha-se cerca de 70%). Isto é o modelo público, nas empresas pode ser diferente, mas gira tudo à volta do mesmo... Algumas empresas
têm ainda melhores condições para empregados que já estejam há mais de 3 anos na empresa.
No meu caso fiquei em casa full-time com o pimpolho 8 meses e voltei ao trabalho em part-time até ele fazer 11 meses. Nesses 3 meses ficava em casa 2 dias, e o pai ficava em casa 3. Esse part-time foi
espectacular para mim. Tinha o melhor dos dois mundos - ainda estava uns dias em casa com o baby mas tinha uma vida para além dele.
Quando voltei ao trabalho tudo foi diferente, passei a fazer o horário típico nórdico - entrar às 8:30 e sair às 16:00. O horário é de 7h30 incluindo hora de almoço (que nunca é mais de 30 minutos). Nem mais um
minuto, porque o infantário fecha às 17:00 e se o vou buscar depois das 16:30 já é o último.
A diferença na Dinamarca é que toda a gente percebe que o trabalho não é a coisa mais importante da vida e que toda a gente tem outra vida (tenham filhos ou não). A flexibilidade é muita, mas claro que os
funcionários têm de cumprir com os seus objectivos e algumas vezes tenho de trabalhar à noite, se há prazos importantes para cumprir.
Mais - dias de doencas - se o meu filho fica doente, tenho direito ao "primeiro dia de doença" e "segundo dia de doença" e o pai tem direito a um dia (porque ele não trabalha no estado). Ao todo, podemos ficar 3
dias em casa com ele. Mas quando a doença é levezinha mas impede-o de voltar ao infantário, tentamos arranjar alternativas (seja a avó ou mesmo uma babysitter) para não faltarmos esses dias todos.
O modelo baseia-se na honestidade. Quem é honesto e produz tem direito a toda a flexibilidade. Quem abusa das liberdades, logo fica com fama de preguiçoso e os chefes ficam desconfiados e de pé atrás e talvez seja dispensado na primeira oportunidade - Como uma colega minha que todos os anos dá exactamente o número de faltas permitidas por lei por doenca (näo sei o numero exacto mas é cerca de 90 dias) sendo apenas gripes, ou dores de cabeca.
A diferença também é que toda a gente faz por usar dos seus direitos, quase que há pressão social por usar dos direitos. No final da gravidez tem-se direito a 6 semanas de licença (antes da data do
nascimento) e eu do meu filho (como era o  primeiro) não senti necessidade de usar porque me sentia inútil e inchada em casa e queria é que o tempo passasse rápido no trabalho. Pois que recebia comentários diários dos colegas a dizerem para ir para casa...
Outro exemplo - se alguém está doente no trabalho é visto como foco de contaminação e olhado como cão raivoso. As pessoas exigem que se vá para casa, incluindo os chefes. Não é preciso baixa do médico - apenas um telefonema ou mail a dizer - hoje estou doente, não posso ir.
Claro que não foi sempre assim... também houve mudança gradual. A minha sogra por exemplo, só tinha 6 meses de licença de maternidade e o trabalho era inflexível com a familia, por isso ela deixou de trabalhar 5 ou 6 anos enquanto os filhos eram pequenos.
Boa sorte com o movimento e desejos de muita flexibilidade!!

Mafalda

O trabalho do meu pai

17.05.11, flexbilizar ~ conciliar
Isaac, 19 meses.

O meu pai passa muito tempo comigo. Agora, e por uns dias, e porque nasceu o meu irmão ele está mesmo quase sempre comigo. Até já me levou com ele para o trabalho. Quando está lá fala num tom mais grave. É como se tivesse outra voz. É como quando está ao telefone. E está muitas vezes ao telefone. A minha mãe diz que ele não larga o telemóvel. Explicaram-me que também responde por escrito a coisas que lhe enviam lá do emprego.
Ele fala comigo e explica-me o que são as pessoas do emprego. Que precisam que ele faça isto e aquilo. Então ele tem de fazer desenhos e escrever coisas, além de fazer contas, que já me disse, ser o pior. E diz que estão sempre à espera que faça omoletes sem ovos. Em nossa casa quem faz omoletes é a minha mãe. Mas o meu pai explicou-me que também não se faz estrugido sem cebolas. Isso já percebi. Porque adoro estar ao colo dele enquanto ele cozinha. E ele deixa-me mexer com a colher de pau.
Quando andamos de carro leva um fio branco na orelha. Eu também o ponho na minha orelha e digo tou mas não ouço nada. Faço de conta porque os meus pais se riem muito. E lá vai ele levar a minha irmã às escolas, e leva-me também quase sempre, e muitas vezes vai a ralhar com pessoas. Outras vezes diz palavras sozinhas muito de vez em quando. Parece triste. No fim arranca o fio da orelha e diz palavras que a minha irmã não gosta de ouvir. Ela ralha-lhe. E ele ri. Prefiro quando ele não leva o fio na orelha. Porque vamos a cantar.
Ele explica-me que o problema é estarem sempre a aparecer coisas novas e que as pessoas sabem que ele fará o que lhe pedem. Mesmo se lhe pedem omoletes. E ouço dizer à minha mãe que é dificil mudar isto. Que a expectativa é esta. Da dedicação absoluta à carreira. Mas, diz ele, o problema maior é que ninguém se entende, ninguém se organiza e ninguém se respeita. Parece que é tudo urgente e é tudo uma treta porque todos usam e abusam e ninguém sabe planear. Eu também não sei o que é isso. Quando fala disto com a minha mãe não se ri. E a voz parece a do telefone. E repete algumas das tais palavras. E está com a mão na cabeça. Eu não gosto de o ver com a mão na cabeça.
O meu pai diz que já não usa fato porque não lhe apetece. Que já o obrigam a demasiadas coisas estúpidas. O que ele quer é que as pessoas percebam que o tempo que estão na empresa não é o mais importante. É o que fazem com esse tempo. Ele diz que há pessoas lá no trabalho que parecem preferir lá estar do que estar com os filhos. Ele já mandou pessoas para casa para tratarem de filhos doentes e eles não foram. Ele diz à minha mãe que quase ninguém gosta dele porque ele é portista e por isso ganha mais vezes, mas também porque não faz as coisas bai de buque. Não sei o que é. Mas parece que é perigoso porque diz que qualquer dia queima-se.
O meu pai diz que faz o trabalho normal dele em duas ou três horas. O resto são coisas que inventam e que lhe roubam tempo. Por isso ele já não faz o que sabe tão bem ou pelo menos como gosta. O meu pai agora já não vai trabalhar à noite. Mas trouxe outro computador onde está muito tempo. Mas eu também já vi o BOB nesse computador. A minha mãe diz que se calhar era melhor ele ter outro emprego mesmo que passasse mais tempo fora de casa. Se isso o deixasse mais feliz. O meu pai diz que é feliz se estiver mais tempo connosco. Diz é que não gosta lá muito de trabalhar porque lhe parece que está tudo louco.

Jaime Xavier. Pai.

"Revolução das mães" na Noticias Magazine (DN e JN) 15-05-2011

16.05.11, flexbilizar ~ conciliar



Elas querem mudar o mercado de trabalho, exigem flexibilidade e prometem maior produtividade. O movimento cívico “Revolucionar para Flexibilizar” reúne várias mães portuguesas na luta pela conciliação entre a vida profissional e familiar.
Contactar associações e partidos políticos são os próximos passos da iniciativa que nasceu na Internet em Abril, com depoimentos de várias mães (está tudo reunido em revolucionarparaflexibilizar.blogspot.com) e que agora quer passar da discussão virtual para acções concretas.
“Estamos a contactar organizações que já actuam junto de famílias ou do tecido empresarial, empresas que já tenham uma cultura conciliante e estejam a lucrar com isso, e todos os partidos políticos (o movimento é apartidário). Contamos organizar debates e criar eventos públicos”, descreve Carla Rodrigues, de 36 anos, em declarações à Lusa.
Esta mãe de duas crianças, que há quatro anos abdicou da carreira de directora de publicidade para ficar em casa com os filhos, é a impulsionadora do movimento que quer “um mercado de trabalho que, em vez de penalizar, promova a maternidade, cumprindo a legislação já existente e mantendo-se aberto a novas e mais profícuas formas de relação laboral”.
Tudo começou quando Carla decidiu voltar a trabalhar e se apercebeu das dificuldades que enfrentaria. No blogue apanhadanacurva.blogspot.com, outras mães partilharam experiências sobre as exigências de disponibilidade das empresas e a falta de tempo para os filhos.
Carla arregaçou as mangas e agendou uma “revolução”: no dia 28 de Abril toda a blogosfera devia dar a sua opinião sobre o assunto, mas desde então não param de chegar contributos.
“A forte adesão confirmou que ninguém anda a viver bem esta falta de conciliação”, observa Carla.
Para estas mães, flexibilizar o mercado de trabalho significa criar modelos mais adaptados às famílias: o trabalho a partir de casa, a coordenação com as férias escolares, o trabalha a tempo parcial, horários reduzidos, bancos de horas e semanas de trabalho comprimidas, por exemplo.
“Um mercado de trabalho mais flexível reduziria as faltas, promoveria a motivação e aumentaria a tão necessária e desejada produtividade”, garantem.
O Movimento conta com mais de 200 seguidores no Facebook e tem passado as últimas semanas a reunir legislação, a procurar parceiros institucionais, exemplos de boas práticas e a receber conselhos semanais de uma consultora em Recursos Humanos.
No meio da pesquisa, foi localizado um vídeo que mostra Michelle Obama no “Fórum on Workplace Flexibility” de 2010, precisamente a falar “importância da flexibilidade e da conciliação entre trabalho e família”, escreve-se no blogue.
“Para cumprirem as suas múltiplas funções, as mães e os pais têm sido verdadeiramente elásticos”, alerta o manifesto do movimento, propondo-se defender “mães e pais que deixaram de trabalhar porque a conciliação era impossível” e aqueles “que não devem admitir que a sua competência seja posta em causa porque amamentam, mudam fraldas, acalmam febres ou acompanham o percurso escolar dos filhos”.
Ana Cristina Gomes (Lusa)

Trabalhar menos horas e com mais garantias

16.05.11, flexbilizar ~ conciliar
"Trabalhar menos horas e mais anos num pais de velhos" , o problema do envelhecimento da população é tratado pelo Publico de hoje e uma das soluções apresentadas por Maria João Valente Rosa vai ao encontro de uma das bases do movimento "Revolucionar para flexibilizar" :

 "As barreiras que existem baseadas na idade e que levam a que a primeira fase da vida seja dedicada à formação, a segunda - a chamada idade activa - a jornadas de trabalho muito intensas e a terceira à reforma e ao lazer estão totalmente desfasadas", diz. Soluções? "Por que não dedicar mais tempo da idade activa ao lazer, à formação e à família, até porque é nessas idades que os filhos são pequenos, compensando depois com um prolongamento do período de actividade até idades mais avançadas?"

Mais à frente, neste artigo, Leston Bandeira chama à atenção para os riscos da precariedade e de uma flexibilidade negativa, que não tem em consideração as necessidades de estabilidade essenciais para a familia :

As mulheres com um contrato de trabalho sem termo tinham "duas vezes mais possibilidades e probabilidades de ter um filho" (...) promover a natalidade "é incompatível com a flexibilização do despedimento e com a instabilidade no emprego". "Quem defende esse tipo de medidas está apenas a pensar naquilo que é mais imediato e, sobretudo, nos interesses de um certo patronato. E o futuro do país vai ser uma desgraça se não conseguirmos criar condições para que os jovens se possam estabelecer e criar uma família", vaticina, reclamando dos políticos "uma escala de prioridades que contemple a questão demográfica e a luta contra o envelhecimento".

Movimento "Revolucionar para Flexibilizar"

14.05.11, flexbilizar ~ conciliar
"Revolucionar para flexibilizar" é um movimento que nasceu espontaneamente, a partir da vontade expressa de muitas mães portuguesas, de contextos, profissões, classes e até países diferentes.

"Revolucionar para flexibilizar" é um movimento de esclarecimento, informação, apoio e luta a favor de um mercado de trabalho que, em vez de penalizar, promova a maternidade cumprindo integralmente a legislação já existente e mantendo-se aberta a novas e mais profícuas formas de relação laboral, seguras e lucrativas para todos.

"Revolucionar para flexibilizar" não está contra nada nem ninguém. Pelo contrário, a nossa missão é defender:

- as mães e pais, que carregam nas costas os compromissos profissionais e o eterno compromisso que assumiram com a educação e o bem-estar dos seus filhos. As mães e pais que trabalham porque querem ser úteis ao país e as(os) que deixaram de trabalhar porque a conciliação era impossível. As mães e pais que não deixam de ser mulheres e homens, que não podem nem devem admitir que a sua competência e o seu profissionalismo sejam postos em causa porque amamentam, porque mudam fraldas, porque acalmam febres, porque acompanham o percurso escolar dos seus filhos.

- as crianças, que são obrigadas a viver o mesmo stresse das mães, que acordam a correr, vestem-se a correr, comem a correr e são privadas da amamentação, em favor de um sistema laboral que é mais exigente com a rigidez de horário do que com a real produtividade. Investir no bem-estar das crianças hoje é garantir que teremos, amanhã, adultos mais felizes, mais competentes e mais equilibrados.

- as empresas, que muitas vezes vêem as recém-mamãs diminuirem a sua produtividade pela exaustão, pelas preocupações, pelo stresse de não conseguirem acompanhar os seus filhos na escola, levá-los ao médico,
dar-lhes banho e deitá-los na cama. Estamos em crise, e em tempo de crise devemos estar abertos a tudo o que possa melhorar a performance, a produtividade e a rentabilidade das nossas equipas e das nossas
empresas. Flexibilizar não é permitir trabalhar menos nem mais: é permitir trabalhar melhor, mais feliz, mais motivado, mais capaz.

- o país. Porque o estado de desenvolvimento e competitividade que atingirmos amanhã enquanto Estado, depende da forma como hoje tratamos as nossas crianças enquanto indivíduos. Investir na educação é ter
visão. Visão de médio e longo prazo. E não são apenas as escolas que têm de investir na educação. Todos somos responsáveis, em cada decisão do dia-a-dia que tomamos. Mães mais realizadas educam melhor e
crianças bem educadas são as sementes de um pais mais justo, mais sólido, mais honesto, mais rico e mais sustentável.

"Revolucionar para flexibilizar" quer que as leis já existentes sejam cumpridas e que se avance no sentido de uma legislação mais evoluída e civilizada.

Para cumprirem de forma excelente as suas múltiplas funções, as mães e os pais têm sido verdadeiramente elásticas. Está na altura de as empresas também o serem. Para cumprirmos todos, de forma excelente, um país melhor.

Flexibilização para maior produtividade
Flexibilização para uma sociedade mais equilibrada


A resposta a esta situação passa inevitavelmente pela flexibilização, acompanhada de políticas de conciliação entre o trabalho e a família que passariam pelo trabalho em casa, pela coordenação do tempo de trabalho com férias escolares, pela implementação de um verdadeiro mercado de trabalho em tempo parcial, por horários flexíveis ou reduzidos, por bancos de horas, por semanas de trabalho comprimidas, por uma flexibilização de benefícios sociais (tendo em conta creches, contribuições para despesas escolares) e uma facilitação do regresso no mercado de trabalho.

Um mercado de trabalho mais flexível reduziria as faltas, promoviria a motivação e aumentaria a tão necessária e desejada produtividade.

A conciliação entre a vida familiar/pessoal e o mundo do trabalho é essencial para uma sociedade de sucesso, saudavel e produtiva.

O lado dos patrões na flexibilidade

11.05.11, flexbilizar ~ conciliar
Desde sempre que os empregadores defenderam a flexibilidade para dar resposta à necessidade de trabalhar por turnos, à necessidade de polivalência para substituição entre trabalhadores, à necessidade de aumentar a produtividade aumentando as horas de trabalho sem aumentar os salários.

Este é o lado dos empregadores e sempre que a flexibilidade corresponda a uma satisfação de necessidades da empresa, a resposta é positiva.

O problema começa quando a flexibilidade é pedida pelos trabalhadores, para dar resposta a necessidades pessoais, que não contemplam as necessidades da empresa – por causa dos fluxos de trânsito, dos horários e rotinas familiares, de formação complementar não exigida pela empresa, até pelos ritmos pessoais que muitas vezes não são compatíveis com os horários normais de trabalho.

Os problemas que esta flexibilidade levanta são inúmeros, começando pela dificuldade legal de cumprimento de um horário de trabalho, passando pela dificuldade do ponto de vista comercial de dar resposta aos clientes nas horas expectáveis de serviço e terminando na subjectiva sensação de injustiça para os restantes trabalhadores.

Diz-me a experiência que estes problemas são ultrapassáveis, porque a maioria das pessoas de bom senso, quando pretende realmente um horário flexível, consegue defender a sua posição e encontrar soluções para estas questões. O problema que resiste é não declarado, não é dito pelos empregadores, não é comentado pelos colegas, não é previsto por quem quer flexibilidade e consiste na impossibilidade de controle por parte do empregador.

Uma pessoa que faz os seus horários, ou que trabalha em casa, não é controlada. E não há nada pior do que perder o controle. Quem o tem não quer abdicar dele. Os argumentos podem ser bons, as respostas magníficas, as promessas de fazer chorar o mais empedernido, mas no fundo, se não aparecerem mecanismos de controle, a desconfiança resiste e acaba minando a flexibilidade enquanto solução.

Há funções que de todo não permitem grandes flexibilidades, como é o caso de todas as que dependem de instrumentos de trabalho que não estão disponíveis noutro local, como é o caso de todos os equipamentos especializados. Outras não o permitem por obrigarem à disponibilidade num dado local, nomeadamente no atendimento de público – estas poderão permitir ajustes de horário e articulação dentro da equipa. Finalmente todas as funções que obrigam a chefiar equipas ou a trabalhar inserido numa equipa mais alargada.

As restantes funções permitem flexibilidade. Depende da capacidade de controle que se deixa entregue à chefia ou ao empregador.

Ultimamente vi uma notícia sobre sistemas de teletrabalho implementados pela Altitude Software, poderia fazer sentido investigar mais a fundo o tipo de sistemas que estão a desenvolver. Mas se não podemos contar com uma empresa para negociar a nossa flexibilidade temos que ser capazes de identificar as vantagens para a empresa e assegurar este controle. Comprometendo por exemplo, um relatório semanal de actividade que até poderia aumentar a produtividade por comparação – os colegas não vão gostar que a pessoa que está em casa produza mais e não vai ser fácil para esta, mas é uma possibilidade, o patrão agradece e a empresa sai beneficiada.

Outra possibilidade de manutenção de controle é o estabelecimento de objectivos mensais, com um relatório semanal de progresso em que a flexibilidade fica penhorada em função dos resultados. Assim que as coisas não estejam bem, tudo volta à posição anterior.

São duas garantias que podem fazer a diferença – relatórios para controle e a possibilidade de voltar atrás assim que se verifiquem problemas. A lógica do “não custa tentar” pode sair reforçada e o peso emocional da perda de controle anulado. No entanto, vai exigir mais de quem passa a dispôr da flexibilidade, porque vai ter que render mais.

Se uma empresa aposta na flexibilidade, paga os custos desta insegurança e reconhece os benefícios. Se é um trabalhador a pedir e a tentar convencer a empresa deste tipo de solução, será o trabalhador a pagar os custos e a reconhecer os benefícios.

Há áreas onde pode ser particularmente eficaz, por exemplo, as cobranças. Nas funções de contabilidade e comerciais, um trabalhador pode comprometer-se com resultados de cobranças que excedam os actuais e fazer as chamadas do seu telemóvel dois dias por semana. Para o lado do empregador pode ser a solução para uma função que ninguém quer e que ninguém faz bem feita, para o lado do trabalhador pode ser uma forma de provar que a flexibilidade pode ser vantajosa para os dois lados.

Em funções de produção intelectual ou criativa é uma questão de bom senso, porque explicar a um empregador que trabalhamos melhor no sossego da nossa casa é muito bonito, mas se temos 4 filhos pequenos é muito pouco provável que ele acredite. Podemos explicar que trabalhamos muito melhor de noite, porque é quando desligamos das preocupações e aí sim se justifica a manhã para dormir e a tarde a dar os retoques finais – tirar uma semana ou duas para trabalho de produção que poderia ser feito no escritório é uma aposta viável.

Todas as grandes mudanças que impomos a nós próprios e aos nossos filhos, desde perder peso, a fazer trabalhos de casa, tudo começa com pequenos hábitos.... baby steps.... é o que aconselho. Começar com pequenas tarefas feitas em casa, mostrar os benefícios de algumas soluções e deixar sempre, sempre, o controle na mão de quem nos garante o salário. Sob risco de um dia, já não valer a pena ter-nos como trabalhadoras a contrato e sugerirem alegremente, e cheios de razão, que passemos a trabalhadores independentes.

Se somos efectivamente necessários, obviamente produtivos e excelentes a atingir resultados, os recibos verdes são uma solução tentadora para ambos os lados. Na conjuntura actual, com os impostos que tornam esta solução mais cara do que um contrato sem termo, é preciso encontrar independência dentro do contrato e para isso é preciso oferecer mecanismos de controle.

Sugiro que pensem nos filhos, quando pensarem nestas garantias de controle. Quando um filho pede para ir ao cinema não nos parece complicado, garantimos que volta a horas e que foi mesmo ao cinema – tudo está perfeito. Quando nos pede para ir passar o fim-de-semana a casa dos tios, telefonamos todos os dias, para ter a certeza que comeu e dormiu direito e que se está a portar bem. Quando vai passar um mês de férias longe telefonamos a horas certas, queremos saber o que andou a fazer e ainda aproveitamos para confirmar a informação com o adulto responsável. É assim que nos vêem os patrões, como pré-adolescentes problemáticos. Por isso precisam de estar tranquilos e nós precisamos de os ensinar que conseguimos ir ao cinema e voltar, portar-nos bem no fim-de-semana e, quando chegámos onde queríamos temos que atender o telefone a horas certas  e ter uma forma de provar o que andámos a fazer.

Ana Teresa Mota
Consultora em Recursos Humanos

Podem deixar comentarios/pergntas em baixo ou enviar mensagens para rhparaflexibilizar@gmail.com
A rubrica de Recursos Humanos é publicada todas as 4as. feiras

Aproveitávamos mais o tempo, produzíamos mais, vivíamos mais

10.05.11, flexbilizar ~ conciliar
A minha vida não é exemplo para ninguém. Tenho um marido que trabalha uma média de 14 a 16 horas por dia (e trabalha mesmo, não fica por lá a ver o ar passar-lhe à frente) e que, quando chega a casa, conta os minutos para se poder ir deitar. Portanto, não pode fazer muito em casa, nem eu lho posso exigir.

No meu caso, a flexibilização é a solução para os meus problemas. Porque agora estou em casa e asseguro bem as coisas (e sim, tenho tempo para ter hobbies), mas quando for trabalhar vai ser complicado. Vou viver a contra-relógio, sempre com um tic-tac a martelar-me a cabeça e a dizer-me que tenho que me despachar para ir buscar os meus filhos, que tenho que me despachar para fazer o jantar, que tenho que me despachar a passar a ferro, que tenho que me despachar a deixar prontas as coisas do dia seguinte, que tenho que me despachar a dormir, que tenho que me despachar de manhã, que tenho que me despachar a despachar os miúdos, que tenho que me despachar a deixá-los, que tenho que me despachar a chegar ao trabalho, que tenho que despachar assuntos, que tenho que me despachar a almoçar, se quero despachar-me a horas de começar tudo isto outra vez. E só de escrever fiquei cansada.

Ninguém gosta de trabalhar angustiado. Ninguém gosta da sensação de passar a vida sem motivação, a contar os minutos para estar a milhas dali, noutro lugar qualquer. Ninguém gosta de ser infeliz.

Uma empresa onde as pessoas trabalham com vontade, porque sabem que são respeitadas enquanto pessoas e não apenas enquanto produtoras de qualquer coisa, é uma empresa mais bem sucedida, onde as pessoas se sentem bem, onde sentem que são recompensadas pelas horas, pelo esforço que dão à empresa.
No fundo, é fácil motivar as pessoas. Basta dar-lhes o que é seu por direito. Um trabalho não é um favor que a empresa faz ao empregado. É uma dinâmica de troca: a empresa dá e recebe, o empregado dá e recebe. Os trabalhadores não têm que sentir que lhes está a ser feito um favor quando usufruem dos seus direitos, sejam eles quais forem. E as empresas também não têm que sentir que o empregado que cumpre horários, que cumpre o que lhe pedem e que executa as suas tarefas está a fazer um favor. Não está, é pago para isso.

Outra coisa: instituiu-se que esta coisa de trabalhar das nove às seis é porreira. Uma estupidez. Então um país que tem 900km de costa marítima (logo, praias), que tem bom tempo durante metade do ano, acha que este horário-tipo faz alguém feliz? Os nórdicos, como têm aquela condição de viverem de noite nove meses por ano, resolveram - e bem - adaptar o trabalho a isso. Trabalha-se das oito às dezasseis ou das sete às quinze. Oito horas, como cá. Sem hora de almoço - é engolir qualquer coisa, uma sandes, por exemplo, e seguir. E às quatro da tarde estão livres para ir buscar os filhos e viver a rotina do dia a dia que, julgo, é igual em todo o lado: banhos, jantar, cama. Ou, no caso de quem não tem filhos, às quatro da tarde estão livres para ir ler um livro, ver um filme, o que for. Então não era de um país como o nosso deixar a preguiça de lado e aproveitar o tempo? Com um horário destes (real, cumprido, e não um horário daqueles que é assim no papel e depois na realidade é outra coisa qualquer - como os bancos, que toda a gente sabe que não funcionam só das oito às quatro), começaríamos a trabalhar mais cedo mas ficaríamos livres mais cedo. Aproveitávamos mais o tempo, produzíamos mais, vivíamos mais. Mas cá o que impera é o culto da lanzeira: duas horas de almoço, vinte e cinco pausas para cigarros e café por dia, mais o lanche, mais o segundo pequeno-almoço, mais...

Daqui a vinte anos não quero sentir que não vivi a infância dos meus filhos porque estive barricada a trabalhar. Sim, o trabalho é importante. Mas, para mim, o mais importante é a minha família. E, se um dia tiver uma empresa, o mais importante há-de continuar a ser a minha família e as famílias das pessoas que trabalharem comigo. Eu não vivo para trabalhar, trabalho para viver. E isto não tem que ser ofensivo para ninguém.

Agora ide. Ide ver como vai a revolução!

Marianne

http://not-sofast.blogspot.com/2011/05/flexibilizacao.html#comments

Inspiração : Deloitte

10.05.11, flexbilizar ~ conciliar
Consciente da importância do equilibrio entre vida pessoal e trabalho na sua cultura, a altamente competitiva consultora Deloitte instituiu um blogue inspirador sobre flexibilização.
Neste espaço, executivas de sucesso divulgam diferentes maneiras de conciliação entre vida pessoal e profissional.
Pode-se ler, neste blogue, sobre o dia em que não hesitou em flexibilizar a sua agenda para estar presente num momento importante da vida da filha, ou quando esteve presente no forum na Casa Branca, onde a flexibilidade foi apresentada por Michelle Obama como uma prioridade.
A seguir de muito perto :
http://blogs.deloitte.com/winblog/