Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Da flexibilidade e pobrivalência
Ando há tantos anos a flexibilizar-me que às vezes nem sei como é que ainda não sou de borracha. Quando cheguei ao mercado de trabalho as regras eram outras. Um jornalista não tinha vida própria, mas isso era mais por opção que por imposição. Era “giro” fazer noitadas, chegar tarde, escrever pela noite dentro. Era giro porque havia essa aura em volta da profissão. Depois veio a TV privada e a era das bonequinhas no ecrã. Então o que era giro era ser nova, bonita e agradável, e todas as jovens jornalistas assim eram estrelas, o que fez reproduzir pelo país fora à velocidade da luz. Resultado: não saiam jornalistas das faculdades, mas antes rapazes e raparigas que achavam o máximo andar de microfone ou gravador na mão, não interessando quase nada se sabiam o que andavam ali a fazer. Como eram muitos, passou a ser apetecível para as empresas de comunicação aplicar o “plano estágio”, de preferência não remunerado. Felizmente, a onda parou. Mas nasceram outras. Vieram as novas tecnologias. E as plataformas e os portais e os sites, mais a flexibilidade e polivalência, a que prefiro chamar “provilavalência”, em memória de um presidente de junta que entrevistei nessa época e que queria na localidade um pavilhão “pobrivalente”. Então a malta reinventou-se. Agora que já usava a internet, tudo era mais fácil. E com menos gente, também. Acabaram-se os especialistas disto e daquilo, excepção feita aos títulos que ainda mantêm grandes repórteres. E todos passaram a fazer tudo, pelo menos no universo fora do estrelado. Ou é assim ou não é, pois claro. Poderia ser de outra forma? Poderia, sim. Nos jornais e nos outros actividades todas. Que me importa a mim se há gente que decidiu aplicar o funcionalismo público às profissões criativas, entrar às 9 e às sair às seis, se durante esse período não fizer a ponta de um chavelho? A mim importa-me (e preocupa-me) que esta geração de patrões tenha menos valores do que a anterior. Que encha a boca com a responsabilidade social e olhe para o relógio com os dois olhos, quando há um atraso. Importa-me dizer que o teletrabalho não quer dizer meio trabalho, e que por isso deveria existir, de facto, e ser remunerado de forma séria.
Nestas alturas lembro-me sempre da Samantha*, jornalista filha de japoneses, radicada em São Paulo, no Brasil. Trabalha em casa. Escreve para blogues. E pagam-lhe, como é justo. Afinal, há ainda muito mais que um oceano a separar as nossas realidades.

Paula Sofia Luz

*http://www.samshiraishi.com/


publicado por flexbilizar ~ conciliar às 00:00
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2 comentários:
De Sophis a 17 de Maio de 2011 às 14:40
"o que fez reproduzir CURSOS DE JORNALISMO pelo país fora", queria eu dizer ;)


De Anónimo a 17 de Maio de 2011 às 15:17
Revejo-me no teu texto, Sofia. No início da carreira, folgava de 15 em 15 dias. Trabalhava de dia de noite e para os suplementos. Depois não foi só ter vindo a família, os filhos, foi a falta de retorno quanto ao dar muito ou dar pouco. Parece que só existia o dar...e isto até nem teria mal, se não nos obrigasse a repensar as prioridades. As necessidades mudam, o estilo de vida também. Quando chegaram os filhos eu queria o tal horário intensivo desde manhã cedo até às 18h00. Porque não? Não estava a enganar ninguém. O trabalho ia ser feito! Sem tempos mortos. A maior parte dos colegas só começava a trabalhar às 12h00. Porque não ficar eu com as desgraças e a actualidade da manhã e do início da tarde e, assumidamente, delegarem para as pessoas sem compromissos familiares os horários mais tardios? Se eu saísse de lá às 23hoo com o mesmo trabalho feito, teria mais louros? Também aconteceu, muitas vezes, ter de sair muito tarde, claro. Quando os temas do dia o justificavam, tipo tragédias sem hora marcada e sem prazo para terminarem. Nunca falhei nessas coisas, nunca. Nunca quis ser nenhuma beneficiada, nem ter privilégios. E mesmo na eventualidade do tal horário flexível, logicamente, isso não seria estanque, nem eu queria. Na impossibilidade de uns, ia eu, sem nunca prejudicar o jornal. O jornal, o nosso brilho pessoal, o orgulho em pô-lo nas bancas, era a última coisa que queria posta em causa. Porque os patrões podem não dar o devido o valor a quem faz o jornal, mas nós próprios damos. Isabela (Luz)


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